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Entrevista de emprego

Após o suicídio de Getúlio Vargas, em 1954, o vice Café Filho assumiu o cargo e logo nos primeiros dias chamou o amigo Rubem Braga:

- Preciso de você!

- Café – respondeu o genial cronista – você virou presidente, está bem empregado, a vida arrumada. Quem precisa sou eu. Estou duro, desempregado, precisando trabalhar.

Ganhou o emprego de adido cultural à embaixada do Brasil em Santiago.

Encarando o provocador

Jânio Quadros fazia campanha para o governo paulista, em 1982, quando um mendigo, com toco de cigarro pendurado na boca, gritou:

- Fujão! Fujão! Fujão!

Jânio ignorou o homem, enquanto seus assessores tentavam silenciá-lo. Mas ao descer do palanque, ele se viu frente a frente com o mendigo, que, claro, gritava a plenos pulmões: “Fujaããão!”

Jânio olhou-o fixamente e se dirigiu a ele, resoluto. Todos temiam que o ex-presidente, aos 65 anos, decidira esmurrar o homem, que se calou de repente e ficou paradão, com medo. Jânio levantou o braço sobre um segurança e, num golpe rápido, ao invés do soco, retirou o toco de cigarro dos lábios provocadores, colocou-o na própria boca e foi embora.

O mendigo permaneceu inerte. E emocionado.

Bombinha de nada

Corria o sombrio 1º de abril de 1964 quando um homem simples, carregando uma caixa, dirigia-se à rua do Príncipe, onde ficava o então IV Exército, no Recife. Um soldado armado de fuzil gritou “alto!”. Assustado, o homem passou a gritar, enquanto era preso:

- É uma d’água! É uma d’água! 

O engano seria desfeito horas depois, quando um capitão o interrogou:

- Afinal, o que é “uma d’água”?

- Meu capitão, eu sou encanador e estou levando uma bomba d’água na caixa. Se eu dissesse que era uma bomba d’água, os seus soldados iam me trazer aqui vivo para conversar com o senhor?

Cunhado de qualidade

O ex-governador de Alagoas Guilherme Palmeira, ministro do Tribunal de Contas da União, conversava com o deputado Nelson Costa, que entrou para o folclore político ao pedir, como souvenir, a guimba do cigarro que o general João Figueiredo acabara de fumar, durante uma audiência.

- Sinceramente, não sei o que seria de mim sem o meu cunhado – disse Costa a Palmeira – Ele me ajuda muito.

- Desculpe, amigo, mas que cunhado?

- Aquele ali, pendurado no crucifixo.

Era como ele se referia a Jesus Cristo, orgulhoso da irmã, que, freira, casou-se com o filho de Deus.

Bom negócio

O ex-ministro Gustavo Krause conta em seu livro “Poder Humor” que Ibrahim Abi-Ackel era ministro da Justiça do general João Figueiredo quando recebeu a atriz Ruth Escobar. Ele tentava fazê-la desistir de montar peças teatrais em presídios e argumentou:

- Penso em sua segurança. Mesmo que agora não haja problema, dentro de dez anos um desses bandidos, já em liberdade, pode até estuprá-la.

Determinada a levar adiante o projeto, Ruth Escobar ironizou a ameaça:

- Pois, ministro, um estupro, se for daqui a dez anos, até que pode ser um bom negócio.

Noé, o sobrevivente

Noé era figura conhecida, no Rio Grande do Norte, por sua capacidade de ficar bem com todos os governos. Não foi diferente no levante comunista de 1935, quando Giocondo Dias, do PCB, ocupou o Palácio Potengi, sede do governo local, enquanto Dinarte Mariz subia a serra, de Caicó para Natal. Uma turba raivosa invadiu um jornal ligado ao governo, disposta a empastelar tudo, e, lá, encontrou o inefável Noé.

- Afinal, com quem você está? – gritou um manifestante.

- Estou com Deus... ofende? – respondeu baixinho, com olhar de súplica.

Escapou, mais uma vez.

A vida privada é pública

Então repórter da Manchete, Alexandre Garcia informou certa vez que o presidente João Figueiredo devorava barras de chocolate que escondia numa lata, na cozinha da Granja do Torto. O general acabara de ser operado do coração. Ficou furioso. Ordenou investigação para identificar o auxiliar que vazara a informação e mandou um recado mal-educado ao jornalista, acusando-o de invadir sua privacidade. Alexandre respondeu por carta, argumentando que, ao aceitar ser presidente, ele abriu mão da privacidade. E advertiu que o chocolate fazia mal também ao País, com o risco de entupir outra artéria. Conhecido pelo jeito duro e até truculento, o general Figueiredo teve uma reação inesperada. Em carta a Alexandre – que a guarda até hoje – ele reconheceu que o jornalista tinha razão.

Confuso horário

Copa do Mundo de 2002, no Japão. No bar Triângulo das Bermudas, em Vitória, lotado de torcedores, entra o vereador Antonio Pelaes (PMDB-ES). Senta-se, pede um chope, e diante das imagens da multidão assistindo a Itália x Camarões, sentencia:

- Dizem que brasileiro é que gosta de futebol. Quem gosta de futebol é japonês. São duas da manhã e olha como eles torcem!

Ele era um perigo

Costa Rego fez fama como jornalista no Rio de Janeiro e, na década de 1920, voltou a Alagoas para ser governador. Austero, governou sob rigoroso estado de sítio, mas, incorrigível mulherengo, enfrentou alguns problemas, inclusive uma conhecida reprimenda do presidente Washington Luís. Seu secretário da Fazenda, Epaminondas Gracindo, pai do saudoso ator Paulo Gracindo, certo dia tomava o café da manhã quando Costa Rego foi entrando na sua casa com a maior naturalidade.

- Espere aí, governador! – gritou Epaminondas – Com essa sua fama de garanhão, o senhor não pode entrar na casa de uma família de respeito.

Governador e secretário despacharam na calçada.

Torcedor sofredor

A linha dura não gostava de votos, nem de políticos, mas teve sempre uma bancada fiel, no Congresso. O deputado Jorge Arbage (PA) era um entusiasta do jeito tanque de guerra de ser do ex-ministro do Exército Sylvio Frota, por isso ficou abatido quando Ernesto Geisel demitiu o general, em 1977, após o assassinato de opositores no Doi-Codi. Arbage ainda estava abatido quando cruzou com o então deputado paranaense Álvaro Dias. A uma provocação, desabafou:

- Isto é como futebol. Perder um jogo não significa perder o campeonato.

Arbage sofreu o pior que pode acontecer a um torcedor: viu o seu time perder o jogo e também o campeonato.

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