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Kobe Steel ameaça reputação industrial do Japão

É lamentável verificar como vem crescendo no meio empresarial de países ricos, inclusive alguns da mais elevada reputação industrial, práticas moralmente execráveis – e criminosas - nas esferas comercial (corrupção) ou da produção (violação de normas, falsificações e outras).  

 

Ontem, neste espaço, abordei o escândalo em que se vê envolvida a empresa aeronáutica franco-alemã Airbus, que no melhor estilo odebrechtiano chegou a constituir uma empresa fajuta em Londres, aparentemente com o objetivo precípuo de repassar propina a funcionários estrangeiros que beneficiassem a companhia.

 

Agora chega-nos a notícia de que a tradicionalíssima Kobe Steel (fundada em 1905) - o terceiro maior conglomerado siderúrgico japonês, fornecedor de ligas metálicas para a produção de automóveis, aviões e trens-bala – vinha há tempos tapeando seus clientes com dados falsos sobre a qualidade das ligas de alumínio e cobre por ela produzidas.

 

Uma empresa que se vê diretamente afetada é Mitsubishi Heavy Industries, que emprega alumínio da Kobe Steel na fuselagem  da aeronave de médio porte que atualmente desenvolve para concorrer no segmento hoje controlado pela Embraer e a canadense Bombardier.

 

Isso é o que a siderúrgica japonesa até agora admite, mas investigadores externos suspeitam de que o até agora admitido possa se tratar apenas da ponta de um iceberg.

 

Não é por outra razão que a revelação dos malfeitos da Kobe produziu um verdadeiro tsunami no mercado financeiro japonês, em prejuízo dela ela própria,  mas também de  firmas clientes. Em dois dias o valor da Kobe caiu em um terço na Bolsa de Valores de Tóquio.

 

Para o Japão, talvez até mesmo mais grave do que as perdas financeiras verificadas, será a sombra que se projeta na esfera da reputação e da confiabilidade de seus produtos. Afinal, qualidade e precisão industrial representam tradicionais esteios do setor produtivo nipônico.

 

Na edição de hoje do New York Times, Jonathan Soble relata que algumas das mais de duzenas empresas consumidoras de produtos da Kobe  – como a Honda, a Toyota, a Mazda a Boeing e a Mitsubishi Heavy Industries - estão realizando investigações para verificar se a qualidade de seus produtos finais poderá ter sido afetada pelo aço de qualidade duvidosa fornecido pela Kobe.

Para a Kobe Steel, o tsunami reputacional começou no domingo passado, quando revelou que “empregados” em quatro de suas fábricas haviam alterado certificados de inspeção de produtos de alumínio e cobre, de setembro do ano passado a agosto deste ano. Foi certificado que esses produtos apresentavam certas especificações exigidas pelos clientes (resistência, tensão), quando na verdade não as tinham. Mais grave, ainda, a siderúrgica informou estar investigando seu próprio passado, pois suspeita que as irregularidades possam ter se iniciado há mais de dez anos.

 

Para observadores externos isentos, parece implausível que funcionários, em quatro unidades fabris separadas e independentes, tenham se mancomunado para produzir falsificações em relatórios, sem que os sistemas finais de controle de qualidade nada tivessem detectado.

 

Pior para o Japão, não se trata este de um episódio isolado. No ano passado, a Mitsubishi Motors e a Suzuki admitiram que trapaceavam nos exames de consumo de combustíveis dos veículos por elas produzidas, buscando apresentá-los como mais econômicos do que na realidade o eram.

 

Vergonhoso para um país de tradições tão rígidas como o Japão foi também o caso Takata, empresa que acabou falindo – um verdadeiro sepukku empresarial – por conta da má qualidade de seus produtos.

 

Pedro Luiz Rodrigues é jornalista, com atuação nos principais veículos de comunicação do Brasil, e diplomata.

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