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Denunciados, políticos deveriam agir com dignidade

Lisboa - A história da corrupção envolvendo políticos e governantes não é prerrogativa brasileira. Há dezenas de casos em todos mundos, embora não justifiquem o crime. Na Itália foram apanhados pela operação “Mãos Limpas” os ex-Primeiros-Ministros Giulio Andreotti, democrata cristão que chefiou o governo sete vezes em 40 anos, Arnaldo Forlani, do mesmo partido e Bettino Craxi, socialista condenado a 27 anos de prisão que não cumpriu porque fugiu para a Tunísia. O mesmo aconteceu com o extravagante Silvio Berlusconi, que enfrentou cerca de 20 processos e, em liberdade, já se movimenta para retornar à politica.

Na França, o antigo Presidente da República Jacques Chirac foi condenado por desvio de recursos públicos, mas a pena foi suspensa porque seu advogado provou não ter havido enriquecimento pessoal. Aconteceu o mesmo com Alain Juppé, seu Primeiro Ministro, acusado de gestão fraudulenta. Com pena de 18 meses de prisão suspensa, dois anos depois elegeu-se Presidente da Camara de Paris. É dele a famosa assertiva, frequentemente invocada pelos caçados pela Lava Jato, de que “em política nunca se está verdadeiramente acabado -olhem o meu caso”, disse ele É o que parece inspirar, por exemplo, o recém condenado ex-presidente Lula

O ex-Presidente francês Nicolas Sarkozy foi detido para um interrogatório de 15 horas, suspeito de financiar ilegalmente o antigo ditador Muammar Khadafi.Com a investigação congelada, retornou à cena política, mas até agora só amealhou fracassos. Há ainda os enredos   do antigo Presidente alemão, Helmut Kohl, e dos Ex-Primeiros Ministros grego Andreas Papandreou, do romeno Adrian Nastase, do checo Petr Necas e do Croata Ivo Sanader.A lista é longa e não se limita aos países europeus.

No Brasil, o desespero e espírito de corpo movem membros da gang politica que enlameia os Poderes da República para escaparem das grades. Suas estratégias têm produzidos as mais vergonhosas fórmulas com esse objetivo. Não sentem o menor constrangimento pelos patéticos esforços que desenvolvem para se manter onde estão, sem a menor consideração pelos males que causaram e continuam a provocar à nação. Aí estão os 14 milhões de desempregados e um país combalido por anos de assalto aos cofres públicos, composto pelos impostos recolhidos da população.

Contudo, ao lado dos políticos denunciados, condenados e dos que conseguiram escapar dos tribunais, há os que se comportam com mais correção ou dignidade. Não recorrem a mecanismos escusos para se livrar das denúncias. Demitem-se, renunciam a cargos e funções, colocando-se à disposição dos juízes, o que ainda não vimos acontecer no Brasil, onde todos os acusados negam o crime, tentam desmoralizar juízes e procuradores, conspiram nas sombras para obstruir a justiça e contratam advogados por milhões para se livrarem. É o que fazem todos os denunciados pela Lava Jato.

Na França, os recém-nomeados ministros François Bayrou, da Justiça, e Marielle de Sarnez, Assuntos Europeus, ambos do MoDem que apoia Macron, demitiram-se porque seu partido foi envolvido num inquérito judicial. Também deixaram os cargos Silvei Goulart, da Defesa, suspeita de envolvimento numa polêmica sobre empregos fictícios, e Richard Ferrando, do Planejamento Urbano, que alegou conflitos de interesse.

No mesmo dia em que o presidente Temer substituiu  duas dezenas de titulares da Comissão de Justiça da Camara para bloquear a denúncia de corrupção passiva apresentada pelo Procurador Geral da República, Rodrigo Janot,três  Secretários de Estado em Portugal pediram exoneração  e  para serem constituídos arguidos .Eles se colocaram à disposição do Ministério Público porque aceitaram convites da GALP, a petrolífera portuguesa, para assistir à final do campeonato europeu de 2016, em Paris, quando Portugal derrotou a França, conquistando a taça.

Qualificados e com ficha limpa, os Secretários da Indústria, João Vasconcelos, que vinha desenvolvendo excelente trabalho com as Startups, Rocha Andrade, de Assuntos Fiscais, que colocava ordem no setor, e Jorge Oliveira, da Internacionalização, entregaram o chapéu porque foram ver o jogo patrocinados pela empresa que pertence a Américo Amorim. Viajaram e regressaram no mesmo dia, num voo fretado, ao lado de um grupo numeroso de políticos e convidados. Não jantaram no restaurante La Tour da Argent, nem foram fotografados dançando com guardanapos na cabeça. Farão muita falta ao governo.

É claro que nenhum povo gosta de ser comparado negativamente, mas foi isso que aconteceu em Portugal. E não foi única diferença com relação ao comportamento de alguns políticos e dirigentes brasileiros. Quando a informação foi divulgada, não esconderam falta, como Presidente Michel Temer tentou fazer com a relação à viagem nada Republicana à Comandatuba, no avião dos caipiras da JBS, que inclusive enviaram flores ao bordo para a Primeira Dama. Assumiram publicamente o erro, desculparam-se e ressarciram a GALP pelas despesas, que não chegaram a 3 mil euros.

A julgar pelo curriculum de cada um deles, o mais provável é que alguma ingenuidade, ou desejo de assistir à partida final entre Portugal e a França, resultado que poucos esperavam, pode tê-los levado a aceitar a mordomia. Não houve dano ao erário público, troca de favores ou concessão de benesses, mas recebimento de vantagem indevida, crime punido pela legislação portuguesa com pena de prisão de até cinco anos ou pena de multa até 600 dias. É o que se espera.

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