O Brasil não precisa de um novo presidente

Não foi pesadelo, não é ficção. Cheio de reviravoltas, o dia 18 de maio entrará para a história do país com cara de profusão hollywoodiana. O agravamento da crise política chega para desacelerar a retomada do crescimento econômico que a gente já ensaiava. Olhamos para os lados, vemos oposição revanchista e um governo caindo em cascata. Estamos sem saída.

Agora, ou vamos assistir, desesperados, a esse mesmo governo sangrar, ou vamos ser práticos, dar meia volta no fundo do poço e procurar nosso próprio milagre de ressurreição. Eu aposto no segundo cavalo, o único que ainda tem pernas para tentar.

Apesar dessa minha opinião causar alguma polêmica e de constitucionalistas acreditarem que ela vai contra a Constituição, é razoável e pedagógico pensar num plano de salvação brasileiro que fuja das alternativas tradicionais de solução política. Países civilizados, de continentes diversos, já em momentos de impasse ou de transição, adotaram esse caminho, fazendo faxinas radicais e objetivas em suas casas. O Pacto de Moncloa, da Espanha (em óbvias outras circunstâncias) está aí para provar, não está? Pois bem, um pacto pelo Brasil e a convocação de uma eleição geral seria o reencontro com a nossa Pasárgada.

Como cidadão, como brasileiro, como político, eu estou agora não é preocupado com o destino do governo Temer, com o destino do PMDB, com o destino de lideranças do PSDB (embora sofra por ver companheiros do meu partido em posição suspicaz). Estou preocupado com o todo, com nós todos. Todos os brasileiros. Toda nossa necessidade de se desapegar do poder, de posições, de vaidades, de agrupamentos, de individualismo.

É necessário que alguém neste País chame as lideranças para construir um pacto. Um pacto para salvar o Brasil do agravamento da crise econômica, do crescimento do desemprego, da miséria, da angústia, da desesperança, do sofrimento, da desconfiança comercial e internacional.

Alguém que aposte em eleições para um governo transitório, com os partidos assumindo o compromisso de lançar um candidato de união nacional para fazer essa transição. Isso é possível num momento em que a nação está tão dividida, tão radicalizada? Com boa vontade, sim. Na hora em que todos estão morrendo afogados, quem tem condições de negar a chegada a um mesmo barco? Um barco que lembre que a política não é somente confrontos, luta de poder, de interesses.

Não adianta a oposição pedir impeachment se ela não tem autoridade pra isso. Não adianta investir em revanchismo, em gestão feita dentro de caixinhas de pouca maturidade. 

Adianta flexibilizar a Constituição à nossa atual necessidade. Adianta envolver o Poder Judiciário, ouvir o setor dos trabalhadores, adianta conversar com o setor empresarial, com a Ordem dos advogados do Brasil, com a sociedade.

Adianta atropelar nossos entraves. Nossa mania de país acirrado, dividido, que sustenta políticos que não tenham a cultura de dialogar em torno de um projeto.

Para esse momento, não precisamos de um presidente da República. Precisamos de um pacificador, alguém com perfil centrista, de carreira ilibada e boa circulação em todos os lados. Alguém capaz de promover união nacional em atuação suprapartidária. Gente como a Ellen Gracie , ex-presidente do STF, gente como a Carmem Lúcia, atual presidente da mesma Corte, gente como Eliana Calmon, ex-ministra do STJ, gente como Cristovam Buarque, Joaquim Barbosa, gente como o Raul Jungmann, que acaba de

entregar o cargo de ministro da defesa do governo Temer.

Por fim, mesmo diante da escassez de lideranças com expressão no Brasil, venho lembrar de um nome que, ao meu ver, é o mais talhado para esta missão: o brilhante magistrado Nelson Jobim, ex-presidente do STF, com próximo diálogo ao judiciário, ex-ministro da Justiça do

Governo FHC e ex-ministro da defesa do governo Lula, com ampla circulação no mundo da política, podendo

articular com forcas partidárias que se degladiam há anos.

Precisamos dessa gente tanto quanto precisamos de um time de conselheiros notáveis, como FHC, Frei Betto, o próprio Lula, e outras figuras de destaque da academia, dos segmentos empresarial e trabalhador, do universo das mulheres , da juventude, dos artistas. 

 

Precisamos desfazer os poderes de ilegitimidade e abandonar modelos esgotados de administração pública.

 

Tenho quatro décadas de vida pública e me sinto no direito de sonhar. Sonhar com eleições em setembro, para um presidente da República que assuma em outubro, e que faça um governo de transição até 2018, entregando ao seu sucessor um país pacificado, e com as reformas necessárias e possíveis efetivadas. Sonhar com um novo tempo e uma nova chance de sonhar. Um sonho feito de excepcionalidade, com anuência inédita da nossa Constituição, que pode, aos pragmáticos, parecer utopia.

 Obama e Martin Luther King mudaram a história do mundo sabendo sonhar. A gente também pode mudar.

 

Terminei o dia 17 usando meu perfil no Twitter para propor eleições gerais e falando em novo pacto nacional. Quero terminar essa quinta-feira, 18, com Drummond e poesia:

 

"Com a chave na mão

quer abrir a porta,

não existe porta;

quer morrer no mar,

mas o mar secou;

quer ir para Minas,

Minas não há mais.

José, e agora?".

 

Agora, José, vamos ousar, superar, unificar. Outra saída não há.

 

 

Elias Gomes, ex-prefeito de Jaboatão dos Guararapes, atual vice-presidente e futuro presidente do PSDB Pernambuco.

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