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A semelhança entre o socialismo e o liberalismo

Faleceu o sociólogo e filósofo polonês Zygmunt Bauman.

Professor emérito da Universidade de Leeds, no Reino Unido, deixa obra de abordagem ao consumismo na pós-modernidade, uma era que qualificou como forjada por relações sociais efêmeras.

Considerado um dos maiores pensadores do século XX, formulou também várias reflexões em artigos publicados sobre o consumismo, a globalização e as transformações nas relações humanas. 

Bauman liderou a chamada “sociologia humanística”, ao lado de Peter Berger, Thomas Luckmann e John O’Neill.

Sempre fugiu de abstrações e analisou o mundo como ele é.

Li certa vez entrevista de Bauman, concedida a Maria Lúcia Garcia Pallares, na qual demonstrou a aproximação doutrinária entre o socialismo e o liberalismo.

Um tema realmente, que desperta curiosidade.

Sobre o socialismo afirmou que “não é o nome de um tipo particular de sociedade.

É exatamente como o postulado de Marx de justiça social, uma dor aguda e constante de consciência que nos impulsiona a corrigir ou a remover variedades sucessivas de injustiça.

Não acredito mais na possibilidade (e até no desejo) de uma “sociedade perfeita”, mas acredito numa “boa sociedade”, definida como aquela que se recrimina sem cessar por não ser suficientemente boa e não estar fazendo o suficiente para se tornar melhor…”

Bauman justificou o seu ponto de vista, citando Camus (“Homme revolté”), ao considerar rebelde o ser humano que diz “não”, mas também diz “sim”, recusa-se a aceitar o que existe e aceita a condição humana, com todas as suas desumanidades.

Referindo-se ao liberalismo, o Mestre polonês lembrou um dos fundadores dessa doutrina moderna, John Stuart Mill e observou que ele “também chegou perto do socialismo, por acreditar que para implementar o programa liberal, o programa da liberdade humana, é necessário uma distribuição justa de oportunidades, diminuindo-se a distância entre os membros mais ricos e os mais pobres da sociedade.

“E, se nos lembrarmos de Lord Beveridge, o criador do Estado de bem-estar social britânico, o caso é o mesmo”.

Bauman mencionou na entrevista que, durante a II Guerra, o governo da Grã-Bretanha criou uma comissão para organizar um programa de bem-estar social (do qual Beveridge era diretor), prevendo que com o fim do conflito haveria milhões de desempregados, que não mais aceitariam a sina dos oprimidos.

Beveridge preparou então todo um programa, que foi pouco a pouco aceito pelo governo, após a guerra.

A proposta se autodenominava liberal e tinha por objetivo tornar os seres humanos autônomos e autoconfiantes, tendo em vista que para ser livre é necessário possuir recursos e pisar num chão firme de apoio.

Bauman sempre deixava claro em suas análises, que deve existir a garantia do Estado, o qual denominava de seguro coletivo contra o infortúnio individual.

Bauman não hesitou em que afirmar que o liberalismo e o socialismo sempre convergiram.

Há uma conexão entre os dois e tudo se reduz a questão simples da existência de dois valores igualmente indispensáveis para a vida humana decente e digna: liberdade e segurança.

Não se pode ter um, sem que se tenha o outro.

Qualquer que seja a perspectiva da qual se parta, chega-se sempre à mesma questão, de que, ou liberdade e segurança são obtidas juntas, ou não serão obtidas de modo algum.

“Esse é o ponto de encontro entre o socialismo e liberalismo” – repetia Bauman.

A propósito das ideias do polonês Zygmunt Bauman, o filósofo inglês John Stuart Mill (1806-1873), o grande precursor do liberalismo social, defendeu em sua obra a repartição justa da produção na sociedade; eliminação dos privilégios de nascimento e a defesa do espírito comunitário, ao contrário do individualismo.

A conclusão é que socialismo e liberalismo se aproximam nas concepções teóricas do progresso social e divergem na forma de alcançá-las.

Sem dúvida, debate útil e profundo.

 

Ney Lopes é jornalista, advogado, ex-deputado federal; ex-presidente do Parlamento Latino-Americano; Procurador federal – nl@neylopes.com.br – www.blogdoneylopes.com.br

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